segunda-feira, 25 de maio de 2015

rua sem saída

um homem vaga pela rua
e se põe a pensar na vida
que não teve até então

ele anda sobre a linha
e vê sangrar a ferida
que atravessa o seu peito

ele clama por respeito
que se deve a um sujeito
que se encontra moribundo

um homem vaga pela rua
e não há coisa mais triste
do que vê-lo tão sozinho

quinta-feira, 21 de maio de 2015

mantra

distorço-me pra ouvir teu jazz
e sentir tua voz
trancar a minha garganta

entrego-me como quem repete um mantra
desligando toda e qualquer conexão

só pra sintonizar na tua onda

segunda-feira, 18 de maio de 2015

ressaca

daquelas noites com musica apropriada
restaram lembranças ainda não digeridas
que avariaram parte da minha tolerância musical
daquelas manhãs dosadas a sonrisal
não ficou nem mesmo aquele sorriso pelas costas
de ver ela partir como quem pensava em voltar
naquelas tardes em que o relógio da sala podia me olhar
com cara de poucos amigos, eu colecionava contas atrasadas 
e saldos negativos pelos bancos da cidade
naquelas noites que iam se arrastando até mais tarde
entre um copo e outro da mesma bebida barata
a gente se encontrava e mergulhava no lago da praça central

segunda de intenções

eu queria lhe escrever uma carta
mas ela deve estar farta
de minhas desculpas
ou então lhe escrever um bilhete
e rolar no tapete
de segunda a segunda

eu podia lhe escrever uns poemas
pra enfrentar o problema
de oferta e procura
e até arriscar um romance
pra que um dia ela dance
comigo às escuras

quinta-feira, 14 de maio de 2015

retalhos

cerejas no pé 
formigas fazem fila
sessão matinê


-x-

mudança de endereço 
final de mais um ciclo 
princípio do começo


-x-

o que é um poema?
se não o lugar 
onde uma palavra 
vale mais que um pixel


-x-

cansado da hipocrisia das redes
o pescador se ateve a cuidar exclusivamente
da linha do seu horizonte
onde à noite se pode ver as estrelas

-x-

não há relógio
pra bater com o nosso tempo
nem calendário
que venha a nos impor aniversários
o nosso amor é atemporal 

-x-

tic
a solidão é um pássaro noturno
que vaga pela paisagem urbana

suas garras são profundas
pois adentram em qualquer sonho

seu veneno mata aos poucos
segundo após segundo
tac

-x-

algumas rolhas no chão da cozinha
as roupas jogadas ao vento do corredor

na copa dançando desnuda e sozinha
é culpa do outono ou fase do amor

quarta-feira, 6 de maio de 2015

lamento

o que me resta
é um pedaço de céu
por entre as roupas do varal
no fundo da área de serviço
e mesmo que o cão do vizinho
não me acorde da ilusão
de estar sozinho
despertarei por mais um sol
no piso de um falso quintal
com meu amor de passarinho