quarta-feira, 23 de agosto de 2017

segunda-feira, 17 de julho de 2017

o frio

o frio que corta a carne
e expõe as vísceras

é o mesmo de quando tu te vais
e não me dá notícias

segunda-feira, 10 de julho de 2017

leitor analógico

incrédulo
relapso
mergulhou num rio vasto
e o acaso
encheu sua boca de peixes
dos seus olhos
saíram feixes de luz
e o coração
quase não coube no peito

quarta-feira, 5 de julho de 2017

jazz

dirtorço-me pra ouvir teu jazz
e sentir tua voz
fechar a minha garganta
(refaço-me)
como quem repete um mantra
interrompendo toda e qualquer conexão
só pra sintonizar
na tua onda

segunda-feira, 12 de junho de 2017

segunda-feira, 5 de junho de 2017

charqueadoces

não se pode comer asfalto
beber água do são gonçalo
ou tomar banho no laranjal
não se pode subir ao palco do teatro
pegar o ônibus sem ser assaltado
ou acampar no camping municipal 
não se pode comparecer aos atos
e ter os direitos assegurados
sem que te cortem o ponto
por insubordinação

"seja doce com pelotas"
com seus governantes, não

quarta-feira, 31 de maio de 2017

vácuo

prendeu o fôlego 
para não prender o tato 
para absorver o impacto 
do projétil 
que atravessou seu peito
no lado direito 
onde definitivamente 
não há coração

quinta-feira, 25 de maio de 2017

microclima

previsão de chuva 
no céu da boca 
a umidade no jardim 
de suas coxas
atingiu o pico 
de duas montanhas
arrepiando a vegetação 
da mata tântrica 
revirando a cama 
para a semeadura

quarta-feira, 17 de maio de 2017

quarta-feira, 29 de março de 2017

segunda-feira, 27 de março de 2017

um sopro

respire
imunize-se
alimente-se
hidrate-se
conecte-se
eduque-se
socialize-se
intoxique-se
manifeste-se
relacione-se
embriague-se
consuma-se
remedie-se
expire

sexta-feira, 17 de março de 2017

mundo moinho

molestam mulheres 
massacram mendigos
margeiam melindres 
malevos medíocres
mascaram mesmices 
martelam mentiras 
mapeiam mesquitas
menstruam morteiros 
manipulam milícias 
mastigam mercados
menosprezam multidões 
matadores multimilionários 
midiotizam a massa
monopolizam os meios 
marginalizam os mitos 
mercantilizam o medo

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

vulto

meu nome é vulto
ando sem ser percebido
escrevo em paredes
apedrejo vidraças
emito sinais de fumaça aos vivos
arrasto correntes
bato de frente com rótulos
e poderosos que arrotam mentiras
do alto de seus cascos edificados
com mão de obra escravizada
na imensa roda da vida

meu nome é vulto
vulgo cidadão que paga imposto
a contragosto
onde todo mês é de cachorro louco
e o todo que me é furtado
me deixa assim pelas beiras
em trincheiras que eu mesmo cavo
rodeado de amigos
que nunca deram um tiro
mesmo estando com a arma
e o coração na mão

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

vai e vem

um rio de lâminas
corre agora nas tuas entranhas
nuvens de estanho
sobrevoam o teu entorno
estranho...

ainda há pouco
conversávamos sobre a alegria
que te fez levitar

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

queda livre

quando a saudade
alcançar o maior pico
e o coração souber
que não é passageiro
a gravidade incidirá
sobre o empírico
e o que era plano
voltará a ser abismo

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

contradições

ele usa penas
de urubu no carnaval
compartilha fotos
de filhotes pra adoção
ele faz ioga
produz livro artesanal
destila veneno
num perfil que inventou
ele acredita
em presente de natal
diz sentir inveja
do vizinho que morreu
ele põe moedas
sob um buda do nepal
e escreve poemas
pra um amor que o deixou

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

inspiração

no lado de cá
no fundo de um buraco
com vista pro céu

ouço o som das asas de um beija-flor
que ainda acredita em voar

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017