quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

alinhamento dos astros

talvez ainda não exista 
nenhuma explicação científica
para o alinhamento dos astros
enquanto nossas carnes fervem
recíprocas
e dançam rumo ao suspiro final

talvez nenhum de nós consiga
descrever a poesia
que trafega em mãos diversas
por entre braços, bocas e pernas
quando se apaga a luz do quarto
e acende um facho de luz natural

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

retrospectiva

todo deserto pisado
pelos meus pés na cólera
todo silêncio velado
com o meu peito aberto
todo projeto rasgado
por algo que vem de fora

volta e meia

pisa, vela, rasga
mas depois vai embora

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

enraizando

ouço pássaros noturnos
colorindo o que anda escuro
dentro da minha cabeça 
ouço o vento em correnteza
desaguando em aquedutos
que afloram no meu corpo
ouço a força da lagoa
musicando qual se fosse
orquestrada pela chuva
ouço enfim outro silêncio
à margem de um novo centro
no fundo de alguma coisa

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

de muda

não ouço mais
os meus passos
a descer pelas escadas
não quero mais o fardo
de viver sem estar por fora
eu quero ouvir a primavera
debruçado em noite e aurora

não quero apenas
um pedaço deste céu
ou cair feito um papel
do quarto andar de um edifício
eu quero mesmo é espraiar
sem ter mais pressa, respirar
poder andar sem compromisso

terça-feira, 3 de novembro de 2015

até breve

levaste contigo
o meu amor de menino
aquele brilho no olho
de quem espera alguém chegar


deixaste comigo
a explosão dos sentidos
e a extensão dos segundos 
que estilhaçam os meus vidros


levaste contigo
música dos meus ouvidos
o meu sonho e o meu signo
que me entregam e me intrigam


deixaste comigo
uma saudade que virou poema

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

infinito íntimo

deixemos o final pra depois
pois antes é preciso sonhar
correr com os olhos fechados
perder o medo de arriscar

deixemos o melhor pra depois
tornou-se imprescindível lutar
nadar contra essa corrente
que prende ao invés de soltar

deixemos o amanhã pra depois
e as horas até um pouco mais
vivamos o agora infinito
no grito dos dias normais

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

quintessência

todo fogo
que acende tua essência
traz o cheiro 
a transbordar pelos teus poros
queima o corpo
em suaves labaredas
incendeia
alguns impulsos compulsórios
toda água
que verte do teu centro
todo vento
que compõe tua natureza
arrebentam
as comportas do meu peito
pondo em chamas
minha cama/fortaleza

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

fim de setembro

eu pensei que o vento
pudesse te trazer pra mim
e que em alguma tarde de primavera
teus olhos, quem me dera
pudessem me olhar no fundo
eu pensei que o mundo
continuaria o mesmo sob sol ou chuva
e que as horas seriam nulas
mediante a tua ausência
conclusão precipitada ou inocência
meus olhos lisérgicos
agora te observam nua e líquida
escorrendo pela parede
enquanto torro na cama

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

epílogo

viver além do existir
perdurar em algum verso
continuar no universo
diante dos olhos de alguém
ser rima cantada
palavra inventada
que inverte os sentidos
no meio de um amor proibido
e ser tão sanguíneo
quanto um tiro no peito
depois do poslúdio
enquanto delírio

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

domingo, 20 de setembro de 2015

utopia

sonhei com um mundo 
onde todos tinham vez
o poder era sucinto
e a fome era viver 
as fronteiras haviam caído por terra
as diferenças não eram mais violentadas
os homens não tinham mais sobrenomes
e o medo já não servia pra nada

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

tormenta

um facho de luz
cruzou teus cabelos
pancadas de chuva
dois corpos no chão
previsão de fogo
ao sul dos teus seios
rajadas de vento
na ponta dos dedos

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

menos um

tropecei na calçada
afundei na sarjeta
a sujeira da rua
escorrendo em meu rosto
resvalei numa vala
mergulhei de cabeça
encontrei a fraqueza
tremulando o meu corpo
deslizei numa falha
do sistema proposto
não sei se foi por gosto
não me enquadro a sistemas

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

cantai

eu disse: chuva
e ela: vento
expus meu drama
ela falou de sentimento
eu disse: raios
ela é terrível
então pedi à inspiração
a sua voz, meu combustível
eu disse: amor
ela: tá quente
por mais que não seja possível
você me entende?
eu disse: é claro
ela me encanta
como se vida
fosse mesmo, tanta

margem fria

um homem caminha
pela margem fria
da sociedade moderna
carrega em cada perna
o peso da soma
de todas as injustiças
que já sofreu
um homem se arrasta
sob a mão nefasta
do mundo concreto
ele foi condenado
a espiar pelas frestas
e viver com as sobras
de quem já comeu

quarta-feira, 29 de julho de 2015

surto

cansei de ser gente
agora sou bicho
cansei de ser lixo
que vive no luxo
agora sou surdo
não ouço absurdos
agora sou mudo
não falo com o mundo
cansei dos humanos
fulanos prolixos
cansei dos indícios
de surto e de fome
agora meu nome
não faz mais sentido
agora meus livros
serão meu escudo

quarta-feira, 22 de julho de 2015

canibal

o teu rio em curva
transbordou com a chuva
do fim de semana
o teu corpo em chamas
aqueceu a cama
pro café da manhã
as maçãs do teu rosto
alcançaram o gosto
da fruta original
com tuas carnes ao sol
eu me vi um canibal
a esperar o almoço

domingo, 19 de julho de 2015

chove

fotografia de Renata Wotter

se minha dor fosse líquida
cairia feito chuva
de um céu de domingo
alagando a rua dos teus olhos
no momento da partida

segunda-feira, 13 de julho de 2015

musa

teus olhos sabem o que dizer
quando me sinto indeciso
quando o teu corpo preciso se estende
e eu não sei  por onde começar
há mais coisas entre o céu da tua boca
e as tuas pernas
do que beijos e marcas de dentes
possam sonhar
eu, que te descubro a cada segundo
em cada linha e verso eu mudo
pra tentar te aprender
tu, que pelo fato de ser musa
me contagia com absurda
simplicidade de existir

quarta-feira, 8 de julho de 2015

o teu amor... agora é pó

o teu amor de dedo em riste
prensou meu sol contra a parede
e acusou o meu silêncio
por não ter nada o que dizer
o teu amor, tão egoísta
usou pronomes possessivos
teceu promessas chantagistas
só dava conta de você

o teu amor de dedo em riste
calou a voz do contraponto
e instituiu a pátria triste
de ter uma verdade só
o teu amor de egoísta
minguou com ar da intolerância
e se rendeu a impermanência
no instante em que veio o pior

o teu amor... agora é pó 

terça-feira, 16 de junho de 2015

andar de cima

o teu poema
caiu feito chuva não precipitada
sobre o telhado de zinco
que eu inventei pra me iludir
o teu poema
zuniu feito vento que dobra a esquina
como que pra dizer a que veio
sem pedir licença ou concessão
o teu poema
subiu até o andar de cima
mudou as cores da mobília
molhou os vidros da retina
e alcançou a imensidão

quarta-feira, 10 de junho de 2015

um sonho

o frio condutor
do calor humano
nos aproximou
um fogo inconsequente
de madeira verde
nos brindou com um vinho
uma canção do Vitor
inundou meus tímpanos
e eu quis ganhar teu beijo

foi quando... eu acordei sozinho

quarta-feira, 3 de junho de 2015

lua cheia

talvez
a lua cheia de hoje
seja o único ponto de referência
entre a nossa existência
e a poesia

segunda-feira, 1 de junho de 2015

estiagem

se me tens 
confuso e distante
saiba que por um instante
eu desejei partir
e sumir como água que adentra a terra
em tempo de seca
e secar como o amor de quem se acomoda
ou desacorçoa

se te pareço 
um pouco melhor do que antes 
(na boa)
saiba que a minha dor
continua a mesma

segunda-feira, 25 de maio de 2015

rua sem saída

um homem vaga pela rua
e se põe a pensar na vida
que não teve até então

ele anda sobre a linha
e vê sangrar a ferida
que atravessa o seu peito

ele clama por respeito
que se deve a um sujeito
que se encontra moribundo

um homem vaga pela rua
e não há coisa mais triste
do que vê-lo tão sozinho

segunda-feira, 18 de maio de 2015

ressaca

daquelas noites com musica apropriada
restaram lembranças ainda não digeridas
que avariaram parte da minha tolerância musical
daquelas manhãs dosadas a sonrisal
não ficou nem mesmo aquele sorriso pelas costas
de ver ela partir como quem pensava em voltar
naquelas tardes em que o relógio da sala podia me olhar
com cara de poucos amigos, eu colecionava contas atrasadas 
e saldos negativos pelos bancos da cidade
naquelas noites que iam se arrastando até mais tarde
entre um copo e outro da mesma bebida barata
a gente se encontrava e mergulhava no lago da praça central

segunda de intenções

eu queria lhe escrever uma carta
mas ela deve estar farta
de minhas desculpas
ou então lhe escrever um bilhete
e rolar no tapete
de segunda a segunda

eu podia lhe escrever uns poemas
pra enfrentar o problema
de oferta e procura
e até arriscar um romance
pra que um dia ela dance
comigo às escuras

quinta-feira, 14 de maio de 2015

retalhos

cerejas no pé 
formigas fazem fila
sessão matinê


-x-

mudança de endereço 
final de mais um ciclo 
princípio do começo


-x-

o que é um poema?
se não o lugar 
onde uma palavra 
vale mais que um pixel


-x-

cansado da hipocrisia das redes
o pescador se ateve a cuidar exclusivamente
da linha do seu horizonte
onde à noite se pode ver as estrelas

-x-

não há relógio
pra bater com o nosso tempo
nem calendário
que venha a nos impor aniversários
o nosso amor é atemporal 

-x-

tic
a solidão é um pássaro noturno
que vaga pela paisagem urbana

suas garras são profundas
pois adentram em qualquer sonho

seu veneno mata aos poucos
segundo após segundo
tac

-x-

algumas rolhas no chão da cozinha
as roupas jogadas ao vento do corredor

na copa dançando desnuda e sozinha
é culpa do outono ou fase do amor

quarta-feira, 6 de maio de 2015

lamento

o que me resta
é um pedaço de céu
por entre as roupas do varal
no fundo da área de serviço
e mesmo que o cão do vizinho
não me acorde da ilusão
de estar sozinho
despertarei por mais um sol
no piso de um falso quintal
com meu amor de passarinho

terça-feira, 28 de abril de 2015

efeito estufa

rolavam como sóis
na cama
ardiam na volúpia
de seus ímpetos
ferviam com a fusão
de seus destinos
planejavam apenas
uma próxima chance
com aquele cheiro
de desinfetante barato
naquele cubículo
que mais parecia o céu

quarta-feira, 1 de abril de 2015

teia

ele não é de fazer manha
não deita em teia de aranha
que ele não conheça
e não escreve por encomenda
se não há um só motivo
que o surpreenda
ele pratica poesia
três vezes por dia
ou quando sente dor
e não esconde o seu temor
de ser um desses
dependentes líricos

terça-feira, 24 de março de 2015

olho da rua

o olho da rua
não vê o menino
que dorme sozinho
no frio do abandono
a boca da noite
mastiga sua vida
engole as saídas
e cospe seus sonhos
o olho da rua
não pisca pra sorte
não chora com a morte
não fecha na esquina
é olho da rua
por olho de gente
que segue passando
pisando por cima

segunda-feira, 23 de março de 2015

gatos-pingados

observando cães raivosos
e desequilibrados
que assumiram ter comido o próprio rabo
pra matar a fome

perfilados com os mesmos ratos
defensores das cortinas de concreto
e dos porões

quarta-feira, 18 de março de 2015

à margem

Jack sabia
que o vento cortava
mas não projetava
um lugar pra ficar
Allen alertava
que a queda viria
mas não pretendia
ficar na pior
Charles queria
corrida e sossego
viver feito um bêbado
num quarto de hotel
James sorria
e amontoava cadáveres
sob tempestades
de alto teor

domingo, 15 de março de 2015

vida e seca

à sombra de uma figueira
lendo Graciliano
um bando de cabras pastando
e o pó fino da poeira
não chove a mais de meio ano
não bebo desde sexta-feira
nem torço mais pelo engano
de ser feliz com vidas secas

à sombra de um juazeiro
olhando para a mangueira
flertando com a morte certeira
que apaga o verde do sonho
não há mais o que aconteça
esperar é trágico e desumano
chover não faz parte da seca
viver não faz parte dos planos

domingo, 22 de fevereiro de 2015

caos

a chuva alaga
teus poros fechados
e o esgoto propaga
a febre dos ratos

há canos furados
debaixo do asfalto
telhados de vidro
trovões, estilhaços

o resto é mercado
interesse, política
o caos instalado
quinhentas mil vítimas

a chuva apaga
teu nome do chão
e os dias se passam
não há solução

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

não importa

não importa
o peso que suportam
as nossas costas
nem o preço
que vendemos
as nossas melhores horas

não importa
o mundo que nos engole
atravessado
nem o que pede
algum trocado
ao cruzar a porta

não importa
o medo que distorce
a realidade
nem o que cega
a sociedade
ao puxar a corda

não importa
a distância entre a loucura
e a lucidez
afinal...
o que é ser lúcido?
pra um bando de estúpidos